“... e também não suportou muito meu estilo russo...”
“pena...”
“é...”
“muito forte, tinha jeito...”
“mas...”
“é...”
Com esse diálogo lacônico, um grande técnico do powerlifting brasileiro explicou a aposentadoria precoce de uma moça que tinha potencial. Era forte, era focada, tinha garra... mas não era guerreira.
Esse mesmo técnico tem uma frase genial quando todos os atletas estão cansados e ensaiando reclamar:
“... e se quiser tem mais!!”
Ninguém reclama.
É um excelente técnico não apenas por conhecer técnica, mas por conhecer estratégia, o valor da disciplina e do espírito guerreiro. É um general russo – piada dele sobre sua própria dureza. É um mestre.
Já vi vários atletas entrarem doentes no tablado: vírus e bactérias infelizmente são analfabetos e não consultam o calendário competitivo para programar seus ataques. Já vi atletas assim desmaiarem, vomitarem e terem péssima performance. Mas vão e competem. Honrosamente. O importante não é ganhar: o importante é competir com honra, dar o melhor de si naquele momento, ainda que o melhor não garanta vitória e ainda que o melhor represente dor e outros danos.
Quatro mil, dois mil ou mil anos atrás diríamos: o importante não é viver, o importante é guerrear com honra, dar o melhor de si na batalha, ainda que o melhor não seja suficiente para vencer e o resultado seja a morte.
Embora eu tenha começado pelo powerlifting, hoje a coluna é sobre artes marciais: a última sobre história destas artes. Mas então por que falei sobre powerlifting? Porque a lógica é a mesma: a lógica da guerra honrosa, que orienta uma vida (luta) e morte (derrota) honrosa.
Falemos um pouco sobre estas guerras, honra e sobre a evolução das artes marciais orientais.
Na antiguidade e em muitas sociedades tribais, prevalecia uma situação de guerra endêmica. Estas guerras são muito diferentes das grandes guerras catastróficas que conhecemos hoje, características da modernidade e dos nossos Estados nacionais. Estas guerras endêmicas antigas eram bastante ritualizadas, contínuas e o limite de hostilidade para disparar o conflito aberto era baixo. Guerras endêmicas não são sinônimo de guerras primitivas e tampouco guerras de menor violência, pelo contrário: nestas guerras, populações inteiras podiam ser aniquiladas de forma brutal.
Na maior parte dos territórios mais densamente povoados da antiguidade, há registro de guerras endêmicas: na América Central pré-colombiana com o Aztecas, nas Ilhas Britânicas e, finalmente, na Ásia Central (onde fica a China), que é onde nos interessa no momento.
Em todas estas regiões de prevalência de guerra endêmica, as sociedades contavam com uma classe particular de indivíduos cujo papel era guerrear. O que havia de comum em todas elas era o desenvolvimento de técnicas sofisticadas de combate associadas a um código de conduta – as artes marciais –, e um complicado processo de treinamento-iniciação, que tornava o grupo mais ou menos fechado para a sociedade. Nem sempre, no entanto, essa classe era valorizada por quem mandava.
Na China antiga, a posição dos guerreiros variou muito ao longo dos séculos.
No tempo do aparecimento e desenvolvimento das primeiras artes marciais chinesas, o pau comia solto: o primeiro registro da técnica de combate considerada “mãe” de todas as demais, o Shuai Jiao, é de 2697 A.C. – quase cinco mil anos atrás. Se isso é verdade ou não, nunca saberemos: os primeiros registros escritos da civilização chinesa apareceram somente mais de mil anos depois disso. A batalha em questão, em si, está perdida entre fatos e lendas: o Jiao Di (precursor do Shuai Jiao) teria sido usado pelo exército do Imperador Amarelo, fundador mítico da civilização Han, na famosa batalha de Zhuolu.
Aí temos uma típica expressão da situação de guerra endêmica: a briga era pelas planícies férteis do Rio Amarelo e dezenas de tribos a disputavam. Nesta guerra lendária, teriam sido unificadas as tribos sob o que se tornaria o primeiro reino Chinês, de um lado e Koreano do outro.
Outros registros antigos incluem o kung-fu Shoubó ( ?? ), praticado na dinastia Shang (1766-1066 A.C.) e o kung-fu Xiang Bo, a partir de 600 A.C. Em 509, Confúcio sugeriu ao Duque Ding de Lu que as pessoas pudessem praticar artes literárias, além das artes marciais. Alguns autores acreditam que essa passagem indica que o kung-fu era praticado fora do contexto profissional militar e religioso desde a antiguidade. Eram artes de uma população envolvida em guerra.
A visão da historia chinesa como a de um território que alternou períodos de unificação e pulverização política, sob guerra constante, não é muito distante da real. Em conflito permanente com invasores mongólicos e, depois, de outras partes vizinhas, não é por acaso que a China ostenta a maior fortificação militar de todos os tempos: a Muralha da China, com 2300 km de extensão, construída a partir do 6º século A.C., num “mutirão” de Estados em guerra para conter ataques do norte.
Durante a Dinastia Zhou (1122-256 A.C.), num período conhecido como “Período da Primavera e Outono”, apareceu a classe dos xiá ( ? ), guerreiros com grande maestria sobre as artes marciais e conhecidos por sua conduta moral impecável, defesa dos fracos e oprimidos e código de honra. Os xiá, junto com os shi, que mais tarde dariam origem aos intelectuais confucionistas, eram bastante respeitados na sociedade chinesa. Esse respeito, no entanto, não durou muito: embora existam registros espalhados sobre a importância dos guerreiros, desde cedo a sociedade chinesa já separava as funções “superiores” de comando intelectual e “inferiores” de defesa braçal, ou militar. Essa separação hierárquica evoluiu para hostilidade, com perseguições sistemáticas dos praticantes de artes marciais.
Quando a situação ficava difícil, no entanto, os imperadores não tinham nenhum escrúpulo em usar a força de combate dos artistas marciais. Essa alternância entre perseguição e mobilização oportunista nos conflitos fez com que as tradições marciais fossem transmitidas de maneira secreta e clandestina através de linhagens familiares e monásticas. A imensa maioria destas tradições não tem registro escrito, já que quase toda a população era analfabeta.
Sem saber disso, é impossível compreender porque temos hoje centenas de “estilos” de kung-fu, por exemplo. É fácil agora entender que os valores mais importantes nas artes marciais reflitam uma moral ao mesmo tempo familiar e religiosa, enaltecendo a lealdade e fidelidade entre “parentes” e ao mesmo tempo a disciplina monástica. As artes marciais se disseminaram em séculos onde as figuras dos monges-guerreiros e mestres-generais foram muito importantes.
Um dos mais antigos registros escritos da China é um tratado sobre estratégia de guerra, até hoje considerado relevante para as artes marciais: “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu, escrito no 6º século A.C.
Registros sobre a difusão das artes marciais surgiram ainda na antiguidade, como as pinturas fúnebres em Muyong-chong, na Korea, no ano 50 A.C. mostrando a prática de Taekkyon, uma arte marcial com algumas semelhanças com o wushu moderno.
Um dos fatos mais significativos para as artes marciais, seja pelo registro lendário, seja pelo papel histórico de fato, foi a fundação do Mosteiro de Shaolin, em 497 D.C. Este mosteiro Zen-budista fica até hoje na cidade de Zhengzhou, e seu primeiro abade e fundador foi Batuo, um monge hindu que chegou na China em 464 D.C. para difundir o budismo. O primeiro templo foi construído em 477 D.C. |